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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O PRESENTE DO PAPAI NOEL

Jacqueline Aisenman



Acordaram e não viram o menino. Procuraram pela casa toda e nada. O desespero já começara a se instalar quando encontraram um bilhete perto da árvore: Mamãe, papai, já volto. Fui levar um presente para o Papai Noel. Assinado: Joel. Agonia completa! Presente para o Papai Noel? Que loucura era esta? De repente a porta se abre e ele entra, de pijamas, um pouco amassado e todo sorridente. Corre abraçar os pais ainda sem fala e sem espera começa a falar: Lembram ontem quando fomos à missa? Ele estava lá, lá na calçada o Papai Noel. A barba estava muito suja, a roupa puída e só o chapéu e o sininho na mão fizeram que visse que era realmente ele. Ah, e o saco ao lado dele. Era o Papai Noel. Fora falar com ele mas ele estava pedindo comida para os passantes com o saco vazio estendido. Foi quando pensou que desta vez ele tinha que ser o Papai Noel para aquele velhinho que todo ano vinha trazer coisas para ele no Natal. Mudos e estarrecidos os pais não conseguiam dizer palavra alguma. Mas o menino terminou seu discurso dizendo, todo feliz: Levei a comida do jantar, a estrela da árvore e aquelas roupas que o papai disse que não queria mais. Mamãe, papai, vocês não podem imaginar a felicidade dele! Disse que eu viesse pra casa correndo que meu presente ia estar aqui... Mas agora que o conheci pessoalmente nem preciso mais de presente! E naquela manhã de Natal três pessoas festejaram dentro de casa o que o Papai Noel festejava sozinho na rua: um Feliz Natal!

ESTÁBULOS DE PAPEL

Maria de Fátima Barreto Michels




Todo 24 de dezembro era aquele ritual. Ela esperava escurecer, pegava a enorme lata escondida sob o assoalho da cozinha, retirava os bebês e começava a lavação. Com uma escova de dente areava todas as peças na pia da louça. Secava tudo com o maior cuidado.
As alvas toalhinhas eram só para aquela função, afinal ter em casa tão finos artefatos, era para si o êxtase, embora misturado ao remorso. Este pecado ela confessaria antes de morrer. Prometera diante do santíssimo, quando entrou na sacristia e levou os paninhos que cobriam o cibório.
Na casa onde vivia com o marido tudo era asseado e pobre. Eles tinham ao final do mês o parco dinheiro da previdência mais os trocados da venda do papelão.
Eram felizes. Chegavam a esta conclusão sempre que conversavam após assistirem na TV as coisas terríveis acontecendo em cidades grandes.
Olavo ficava meio contrariado com aquela mania dela, mas deixava pra Deus resolver. No mais se davam muito bem desde que se casaram. Ela era a melhor mulher do mundo, era o que ele concluía a cada natal.
Os vizinhos sabiam que Dona Feliciana era muito religiosa e na semana do natal ela e o marido iam até as cidades vizinhas ver o movimento. Principalmente rezar diante de presépio, olhar as vitrines e talvez comprar uma lembrancinha. O casal sempre voltava com uma sacola, uma caixinha, um volume qualquer. Era o único luxo que tinham. O resto do ano era a vida dura, a rotina.
Ele abriu o forno, colocou o frango bem temperado e foi ajudá-la. Sentada no chão, diante de inúmeras manjedouras de papelão feitas pelo próprio Olavo, ela ia distribuindo em cada uma um menino Jesus. Cada um mais lindinho do que o outro.
Sentia-se mulher totalmente realizada. Os bebês mais amados do mundo estavam ali sob seus cuidados. Todos surrupiados nas lojas, nas casas e nas igrejas, ao longo dos anos.
Olavo a abraçou com força e depois beijou sua testa. Soubera desde muito jovem que nunca seria pai. Foram para a mesa.
Lá fora passava gente rindo, cantando e falando em papai Noel.
Feliciana sorria por dentro. Era natal, data que ela adorava!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

AS VERRUGAS DE SUA MAJESTADE

Dulce Claudino
Garbosa, faceira, misteriosa... Ares de dama? Princesa? Rainha? Pertence ou espia a Corte?
A menina a observava de longe, descansada numa touceira alta de capim, pernas cruzadas, mãos ao queixo, olhos fitos em Sua Majestade. A majestosa, requebrava num pé só feito Saci-Pererê, ostentando seu vestido verde, balonê.
- Vejam só, balbuciava a garota, tão exibida e as pernas roliças cobertas por um manto negro de verrugas de tamanhos diversos. Continuando o monólogo, sem plateia, a não ser uma fileira de formigas carregadeiras, que transitavam o caminho, alquebradas ao peso das folhas às costas.
-Vou me aproximar. Quem sabe um vento matreiro não arranca com seus dentes pontiagudos uma daquelas grandes verrugas e eu, prazerosamente, a transformo em bola de gude ou pingue-pongue. Devagarinho foi se achegando. Olhou de relance para cima e o queixo despencou ao encarar o interior de Sua Majestade.

 -Ah...o que Ela esconde sob o seu vestido verde balonê !!! As narinas pronunciaram-se em cacoetes inalando o aroma provindo das entranhas de Sua Majestade. Como agir? Remover suas verrugas e chupá-las saboreando a polpa suculenta? Engolir ou não os caroços? Cadê coragem! Saiu do torpor ao ouvir zumbidos de invasores.
-Oi...Tem alguém aí? Preciso de ajuda. Estou agarrada às pernas de...
Começou a colheita. As mãos se cruzavam na árdua labuta. Sorrisos debruçavam-se às alças dos cestos repletos dos frutos frescos da jabuticabeira.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

PÃO POR DEUS

                                                         Márcio José Rodrigues



 
Difíceis aqueles tempos nos campos da Madre e nos arredores da lagoa do Camacho.
Tropas imperiais ameaçavam os farrapos do General Canabarro, em retirada após a fragorosa derrota na heróica batalha naval na Barra da Laguna naquele 15 de novembro de 1839. A esquadra de Mariath impingira uma implacável derrocada à pequena frota farroupilha. O lendário Giuseppe Garibaldi perdera muitos amigos naquele local fatídico, mas nada fora tão dramático como a morte do inseparável João Grande, cortado ao meio com um certeiro tiro de canhão da poderosa artilharia da fragata " Bela Americana".
Na companhia de Anita, a quem levaria para sempre ligada ao seu próprio destino, cavalgava cabisbaixo. Por ele, ficariam nas cercanias para tentar a retomada da cidade, idéia não comungada pelo General, que pretendia um retorno rápido ao Rio Grande do Sul.
A tropa em andrajos seguia melancólica, um penoso caminho só suportado por heróis.
Acossados e sem mantimentos, com o quase nada de armas e munições que lhes restara, deixavam para trás o sonho efêmero de uma pátria livre em terras da província de Santa Catarina.
A romântica República Juliana não durara mais que uma quimera.
Embora fosse quase verão, já em novembro, o vento frio soprava rigoroso, do sul e açoitava sem piedade os corpos daqueles homens cansados e seminus, atormentados pela fome e pela melancolia. Um pouco à retaguarda, alguns cavaleiros solitários e esparsos, experientes e ligeiros, cobriam a retirada e marcavam o limite seguro entre os piquetes imperiais e os retirantes, observando os movimentos do inimigo.

Um guasca chamado Diogo, homem curtido na dura lida da estância e mais ainda pelas agru-ras da guerra, contornava uma duna alta não longe da praia quando, num repente, avistou a pouca distância um infante imperial desgarrado do seu grupo. Separava-os apenas um curto galope atravessando uma sanga de água estagnada deixada pelas chuvas de dias atrás, mas não tão perto para um arremesso de lança.
O soldado não parecia mais que um guri e pelo aspecto novo da farda azul, devia ser um desses recrutas sem posses que o exército arregimentava e mandava para o combate, sem muito treina-mento.
Ao deparar com a imagem repentina do cavaleiro, o rapaz assustado e só, sente um tremor percorrer-lhe toda a espinha e o coração disparar. Tão logo se refaz da primeira impressão de espanto, leva incontinenti a mão ao cão do fuzil e daí, quem sabe, dar voz de prisão ou mesmo atirar no desconhecido.
Mas, o inexperiente recruta não tinha vivência para avaliar o que poderiam juntos, aquele homem e seu cavalo. Numa fração de segundo, como se homem e animal fossem um só, o farrapo precipitou o corpo para o flanco escondendo-o totalmente da mira e já apontando a aguçada lança para o ataque, sob o pescoço da montaria. Rápido em sua reação, o magnífico e treinado corcel, ao mesmo tempo, arrancou impetuoso e arremeteu contra o jovem atropelando-o com uma violência inimaginável, prostrando-o atordoado ao chão.
Quando se recompôs e tentou levantar-se, era tarde demais. O gaúcho de pé à sua frente já lhe tinha a ponta afiada da lança alojada abaixo do queixo comprimindo-lhe a garganta. Com o mínimo esforço ele o transpassaria.
O pobre infante reconheceu sua condição de inferioridade e anteviu seu triste fim. Mais que medo, a tristeza e a decepção de acabar sua vida daquela forma humilhante, produzia-lhe uma repen-tina secura e um desagradável gosto na boca.
Não pediu clemência. Apenas elevou devagar a mão, mostrando a palma, como que pedindo um momento de vida.
Sob o olhar atento e os sentidos ainda mais aguçados do cavaleiro, retirou de dentro do casaco uma folha de papel e a apertou contra o peito.
Pensando tratar-se de uma importante mensagem, o farroupilha tomou-o num gesto rápido.
À noite no acampamento achegou-se à barraca dos oficiais.
- Comandante, o que tem escrito neste papel?
Garibaldi aproximou-o do nariz e aspirou, longa e suavemente, resquícios de um delicado perfume. Achegou-se mais à luz do lampião e leu o que nele estava escrito, com letras arredondadas letras de mulher:

“Ao meu estimado Diogo
Que parte nessa jornada
Pão-por-Deus manda pedir
Que volte para sua amada."

Calou por algum tempo como se o singelo poema ou sua fragrância o tivesse remetido a outro lugar, que não aquele desconfortável acampamento do Camacho.
Finalmente, dirigiu-se ao ansioso homem que se mantinha ereto, à sua frente:
- Diogo, caro mio, quem escreveu estes versos para ti? Isto é um " Pão por Deus", uma declaração que as moças açorianas costumam enviar aos seus amados. Eu também já recebi um desses, da minha Anita, disse sorrindo. Depois comentou mais sério:
- Que coisa esta guerra, caro mio! Então tu deixaste um "amore" na República Juliana?
- Não, meu comandante! Este papel eu tirei de um soldado imperial.
- Mas que destino! O imperial tinha o mesmo nome que tu!
- Comandante, pode ler de novo o escrito?
Garibaldi sorriu e o leu de novo pausadamente.
- Gracias, comandante!
O italiano estendeu-lhe o papel.
Diogo apanhou-o, tocou de leve a aba do chapéu e apenas balbuciou:
- Com sua licença!
Depois do leve gesto de cabeça do oficial, retirou-se para longe das fogueiras e ganhou a escuridão da noite. Fazia muito frio e o vento soprava forte. O céu estrelado, limpo, de um fundo azul quase negro destacava com forte contraste o brilho das estrelas. As "Boleadeiras" (Três Marias) em linha, lembravam Negrinho do Pastoreio apealando cavalos na estância de Deus.
Olhou na direção do sul, como que buscando o lugar de suas lembranças. No alto, o Cruzeiro refulgia soberano e como sua lança de combate, apontava para a querência onde também deixara a chorar sua chinoca...
Tentou lembrar os versos e eles vieram aos pedaços.
Estimado Diogo...
Pão por Deus...
Que volte para sua amada.
... que não sabia ler nem escrever, mas também lhe dizia coisas lindas assim, quando ele se mirava no fundo dos seus olhos escuros.
A solidão apertou ainda mais uma ansiedade ao mesmo tempo sentida e doce em seu coração. Naquele espaço majestoso e vasto, um poeta repentinamente acordado, que morava em seu peito rústico de campeiro, arrancou-lhe um pensamento. Não haveria momento, nem mais nenhum outro lugar no mundo, tão lindo e tão grandioso, para dizer alguma coisa ao Grande Estancieiro do Céu.
E assim, num gesto de reverência, posição perfilada de soldado, inclinou a cabeça e apertou o chapéu contra o peito, dirigindo-lhe uma prece entrecortada pela emoção:
- Patrão do Céu, hoje eu te dou gracias por não ter tirado a vida do soldado imperial.
Pois entonce, deixa que ele volte para sua amada!
E que eu também possa voltar para a minha!
Com o papel entre os dedos, pensou em levar consigo aqueles versos ao Rio Grande, mas havia decidido que não lhe pertenciam. Ergueu a mão sobre a cabeça e soltou-o na escuridão para que o vento o transportasse na direção da Laguna e lá encontrasse seu verdadeiro dono.

(Foto de Luis Santana)