quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

ESTÁBULOS DE PAPEL

Maria de Fátima Barreto Michels




Todo 24 de dezembro era aquele ritual. Ela esperava escurecer, pegava a enorme lata escondida sob o assoalho da cozinha, retirava os bebês e começava a lavação. Com uma escova de dente areava todas as peças na pia da louça. Secava tudo com o maior cuidado.
As alvas toalhinhas eram só para aquela função, afinal ter em casa tão finos artefatos, era para si o êxtase, embora misturado ao remorso. Este pecado ela confessaria antes de morrer. Prometera diante do santíssimo, quando entrou na sacristia e levou os paninhos que cobriam o cibório.
Na casa onde vivia com o marido tudo era asseado e pobre. Eles tinham ao final do mês o parco dinheiro da previdência mais os trocados da venda do papelão.
Eram felizes. Chegavam a esta conclusão sempre que conversavam após assistirem na TV as coisas terríveis acontecendo em cidades grandes.
Olavo ficava meio contrariado com aquela mania dela, mas deixava pra Deus resolver. No mais se davam muito bem desde que se casaram. Ela era a melhor mulher do mundo, era o que ele concluía a cada natal.
Os vizinhos sabiam que Dona Feliciana era muito religiosa e na semana do natal ela e o marido iam até as cidades vizinhas ver o movimento. Principalmente rezar diante de presépio, olhar as vitrines e talvez comprar uma lembrancinha. O casal sempre voltava com uma sacola, uma caixinha, um volume qualquer. Era o único luxo que tinham. O resto do ano era a vida dura, a rotina.
Ele abriu o forno, colocou o frango bem temperado e foi ajudá-la. Sentada no chão, diante de inúmeras manjedouras de papelão feitas pelo próprio Olavo, ela ia distribuindo em cada uma um menino Jesus. Cada um mais lindinho do que o outro.
Sentia-se mulher totalmente realizada. Os bebês mais amados do mundo estavam ali sob seus cuidados. Todos surrupiados nas lojas, nas casas e nas igrejas, ao longo dos anos.
Olavo a abraçou com força e depois beijou sua testa. Soubera desde muito jovem que nunca seria pai. Foram para a mesa.
Lá fora passava gente rindo, cantando e falando em papai Noel.
Feliciana sorria por dentro. Era natal, data que ela adorava!

2 comentários:

Coióia disse...

Amiga Fátima, este conto "Estábulos de Papel", foi um dos contos de Natal que mais mexeu comigo, até hoje. Conto simples, singelo mas carregado de muito amor por Aquele que veio para nos salvar e tão ignorado pelo Homem. Parabéns.Tereza Rödel

Luiz Carlos Amorim disse...

Fátima, parabéns pelo conto. Muito bom. Feliz Natal pra você.
Um grande abraço do Amorim