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segunda-feira, 18 de abril de 2011

O PEDREIRO ESCRITOR




Maria de Fatima Barreto Michels

Muito atento ao seu trabalho, ele estava sempre lá. Fazendo o piso, assentando tijolos, colocando tubulações, reboco e revestimento cerâmico. Sem elevador, subíamos seis andares diariamente, acompanhando e fotografando a obra. Achei interessante a superfície daquele banco. Sobre aquele tosco banco o Manoel recortava com a  serra mármore, ou maquita como ele dizia, os pisos e azulejos nos tamanhos necessários.
A tábua que formava a parte do assento do banco estava a cada dia  com mais sulcos, linhas retas que se cruzavam. Ali também ficavam pequenas porções de massa que respingavam quando o pedreiro subia para fazer o emboço na parte mais alta da parede da churrasqueira. Comecei a clicar semanalmente o banco e o fazia em horários diversos para obter tons que variassem. Com alternadas posições do sol no bairro Mar Grosso, eu ficava observando a história que, numa  linguagem diferente, ia sendo escrita na madeira daquele banco.
Em outro continente, na cidade de Genebra, uma escritora também criava, digitando no computador, as suas linhas.
Antes de eu começar a observar a construção, outros homens já haviam trabalhado muito por ali, finalmente vieram o pintor, o carpinteiro, e o eletricista e todos eles continuaram a utilizar o banco.
Muitas pessoas trabalhavam e cada qual ia deixando seu autógrafo, naquele prédio. Lá da Suíça a Jacqueline convidava poetas e contistas, através da internet, para que juntos erguessem uma obra em forma de palavras. Um dia a escritora contratou a publicação dos textos de 38 brasileiros, dos quais entre ela uma dezena de lagunenses.
Eu e Isabella, estudante de design industrial, sugerimos fotos diversas para a capa do livro, mas para nossa surpresa, entre flores, céu e mar a editora escolheu justamente uma parte daquele assento de banco que reunia muitas marcas. Tais riscos, na imagem fotográfica, convergem para uma rachadura que há na tábua. A fresta forma uma linha que liga horizontalmente ou, pode-se dizer, na qual estão dependurados muitos dos sinais de uma especial semiótica da construção civil.
O livro se chama Varal Antológico,porque ele nasceu da revista virtual Varal do Brasil e trata-se de uma coletânea onde estão reunidos muitos autores. Fundamentada “numa relação de semelhança subentendida entre o sentido próprio e o figurado” poderíamos dizer que a fotografia, na capa do livro, conseguiu estender um metafórico varal. Um fio que começa com a escritora lá na Europa e vem até o pedreiro aqui no Brasil. Impossível aqui não me lembrar do filósofo e educador Paulo Freire:  “Não há saber mais ou saber menos: Há saberes diferentes.”
Diferentes meios e formas de expressão: na obra civil as ferramentas, na literatura as palavras. A foto da capa é o comprovante dos inúmeros operários que naquele banco nos ajudaram a estender o VARAL ANTOLÓGICO.
Quem não gosta de poesia? Quem não precisa de um varal?

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O MAR

Texto de Regina Ramos dos Santos
com fotos de Maria de Fátima Barreto Michels


O mar é algo tão gradioso, tão majestoso, tão maravilhoso, que, ao pensar em escrever alguma coisa sobre ele, sinto-me como que um grão de areia...





quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

CORAÇÃO DEZEMBRINO

Maria de Fátima Barreto Michels


Sempre que chega dezembro,
dou-me a chance por um mês,
permitindo ao coração,
ser criança outra vez.

Repleta de confiança,
troco perdão por beijinhos,
faço beiço, bato pé,
sonhando com presentinhos.

Até com Jesus Cristinho,
a alma brinca de roda,
esperanças renovadas,
no coração pulam corda.

Arvorezinhas e vozes,
em cantos de mil amores
atravessam as janelas,
da noite de luz em cores

taque-tique, tique-taque
meu coração dezembrino
“crianceia”, tique-taque
Esperando Deus-menino

Crê e anseia coração
Tremeluz tremeluzindo
Esquece as dores do mundo
Taqueteia...taquetindo...

ESTÁBULOS DE PAPEL

Maria de Fátima Barreto Michels




Todo 24 de dezembro era aquele ritual. Ela esperava escurecer, pegava a enorme lata escondida sob o assoalho da cozinha, retirava os bebês e começava a lavação. Com uma escova de dente areava todas as peças na pia da louça. Secava tudo com o maior cuidado.
As alvas toalhinhas eram só para aquela função, afinal ter em casa tão finos artefatos, era para si o êxtase, embora misturado ao remorso. Este pecado ela confessaria antes de morrer. Prometera diante do santíssimo, quando entrou na sacristia e levou os paninhos que cobriam o cibório.
Na casa onde vivia com o marido tudo era asseado e pobre. Eles tinham ao final do mês o parco dinheiro da previdência mais os trocados da venda do papelão.
Eram felizes. Chegavam a esta conclusão sempre que conversavam após assistirem na TV as coisas terríveis acontecendo em cidades grandes.
Olavo ficava meio contrariado com aquela mania dela, mas deixava pra Deus resolver. No mais se davam muito bem desde que se casaram. Ela era a melhor mulher do mundo, era o que ele concluía a cada natal.
Os vizinhos sabiam que Dona Feliciana era muito religiosa e na semana do natal ela e o marido iam até as cidades vizinhas ver o movimento. Principalmente rezar diante de presépio, olhar as vitrines e talvez comprar uma lembrancinha. O casal sempre voltava com uma sacola, uma caixinha, um volume qualquer. Era o único luxo que tinham. O resto do ano era a vida dura, a rotina.
Ele abriu o forno, colocou o frango bem temperado e foi ajudá-la. Sentada no chão, diante de inúmeras manjedouras de papelão feitas pelo próprio Olavo, ela ia distribuindo em cada uma um menino Jesus. Cada um mais lindinho do que o outro.
Sentia-se mulher totalmente realizada. Os bebês mais amados do mundo estavam ali sob seus cuidados. Todos surrupiados nas lojas, nas casas e nas igrejas, ao longo dos anos.
Olavo a abraçou com força e depois beijou sua testa. Soubera desde muito jovem que nunca seria pai. Foram para a mesa.
Lá fora passava gente rindo, cantando e falando em papai Noel.
Feliciana sorria por dentro. Era natal, data que ela adorava!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A Mandona

                                                      Maria de Fátima Barreto Michels


Almoçava, chegava ao portão
e berrava boca afora:
- Vamos jogar taco?
Determinada que só ela
nos seus nove anos!
Eram tardes inflamadas
de algazarra sol e o taco,
comendo solto, na rua tomada
Havia uns 5 meninos,
uma menina e ela
A mandona!
De repente os hormônios
batom, brincos, salto alto
e aquela lindeza de moça
Agora quando ela passa,
eles, na orfandade, sonham,
se acham e berram boca adentro:
- Confio no meu taco!