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segunda-feira, 11 de abril de 2011

ESTRELAS

Márcio José Rodrigues 
 

 
Estrelas são meninos
A brincar nas alamedas do céu.
Estrelas- meninos
Imaculadas
Limpas
Puras 
Luminosas
Intocáveis
Inalcançáveis.


Quem te deu tanto poder,
Que podes tocar nossos meninos
Com tuas mãos sujas?
Tu que aprovas as leis
Para teu uso pessoal,
Tu  os corrompes em sua pureza
E deixas que os corrompam
Com tua negligência
Com tuas mentiras
Teu desprezo
Tua arrogância.

Semeias rancor nas searas
Onde antes só cresciam
Inocência, igualdade, paz.
Tu que inventaste estrelas
Negras...
Pardas...
brancas...
Semeias um ódio novo
E vais colher
Estrelas mortas
Nos campos do céu.

sexta-feira, 11 de março de 2011

JACQUELINE


Márcio José Rodrigues

Este abraço é pelo seu aniversário hoje.
Carrega um desejo imenso de muitas felicidades, sucesso e como você gosta, paz.
Muita saúde e fertilidade criativa para esta literatura doce e ao mesmo tempo densa e forte com que você nos tem brindado todos os dias.
Temos uma dívida imensa para com você no incentivo de nossa literatura aqui em sua terra natal, a Laguna, que parece estar como uma fênix ressurgindo para a cultura.
Seja abençoada junto com sua querida família.
Mil beijos para você.

quinta-feira, 10 de março de 2011

À MULHER

Márcio José Rodrigues

A toda mulher da minha vida, 
desde minhas avós e minha mãe,
que me legaram seus genes benfazejos.
 Minha mãe que ficou só,
mas nos criou com luta e trabalho, carinho e colo,
exemplo e austeridade, mimos e beijos.
Minhas filhas e netas a quem repasso
com imensa honra o padrão das ancestrais.
Que me fizeram sentir como parceiro
de Deus no milagre da criação.
Minha aluna,
com quem convivi
 melhor fase de minha vida profissional
 de quem aprendi tantas lições sobre tantas coisas valiosas.
Minha amiga,
porque te tenho como um tesouro
que achei com muito empenho e sorte.
Tu, mulher,
que tens a mesma origem divina que eu,
 por seres tão igual a mim em dignidade,
direito, dever, liberdade, consciência e intelecto.
Por seres tão diferente de mim em dons,
em graça, beleza e corpo, curvas sensuais e hormônios,
raça onde fui encontrar minha companheira.
Por seres igual a mim e o oposto de mim.
Igualdade que me enche de orgulho,
diferença que eu adoro e faz colorir
a tela onde é pintada a minha vida.
Te amo todos os dias,
mas resolvi dizê-lo hoje, no dia internacional da mulher.


Imagem: Pintura de Marie-Denise Villers

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

TOALHAS DE RENDA

Márcio José Rodrigues





Toalhas de renda
de bilros, mistérios...
Abertas na praia.
Bordados etéreos,
À luz do luar.
Quem sabe se as águas
Escondem sereias,
Fascínios de dunas,
Espumas e areias,
De coisas de mar.

Tramóias de prata
Nas alvas esteiras.
Segredos guardados
De antigas rendeiras,
À luz do luar.
Antigas saudades
De antigos Açores,
Antigas lembranças,
De antigos amores...
Cantigas de mar.

Um vulto caminha
À beira da praia.
A espuma lhe borda
A fímbria da saia,
À luz do luar.
Lagunas, imagens...
Os passos de Anita....
Pegadas n’areia....
O vento medita
Histórias de mar.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O PESO DO SIM

Márcio José Rodrigues


Ela vivia sonhando acordada com uma reviravolta em sua existência sem graça. Não satisfeita com a boa vida e prestígio que desfrutava em sua cidadezinha de interior, a moça mais bonita do lugar, perdia dias e horas lendo revistas sobre artistas, preenchendo e enviando milhares formulários, ouvindo as músicas no rádio ou assistindo novelas, programas de auditório e reality shows. Delirava por muito mais, ser rica, famosa, aparecer na televisão.
Numa tarde de rotina, foi aos gritos que abriu um envelope de uma emissora de TV, dizendo da aprovação para participar em rede nacional no programa "DIGA SIM, DIGA NÃO".
A notícia correu como um corisco e num instantinho todo mundo sabia da sortuda e a carreira de superstar acabara de explodir ali mesmo em frente à sua casa; uma multidão querendo tocá-la, abraçá-la, rasgando-se por um autógrafo. O único que não gostara nadinha da história era o bonitão comandante da polícia local, Tenente Liones Genário Barreto, que sonhava sinceramente declarar-se e pedí-la um dia em casamento e com ela construir seu futuro, sua história. Mas, coitado embora ela o notasse e às vezes até sonhasse em estar em seus braços, ele era ainda pequeno para os suas ambições muito maiores.
E foi assim, com faixas e cartazes, o prefeito, as autoridades, banda de música, seu nome repetido aos gritos histéricos e até um cordão de isolamento providenciado pelo tenente em prantos, que ela acenou do helicóptero pousado no campinho de futebol, que a levaria ao aeroporto da cidade vizinha de onde partiria de jatinho para São Paulo. Seria o prenúncio de uma despedida e talvez ela nunca mais voltasse
No estúdio da emissora, as coisas eram bem menos glamorosas do que imaginara. Tudo era falso, de isopor, papel colorido e efeitos luminosos. O auditório repleto tinha algo de assustador. A boca secou em instantes, quando o apresentador anunciou próximo quadro. E agora, Brasil, o programa que está emocionando o país Tudo parecia falso. Um cartaz fora da vista das câmeras avisava: aplausos e gritos. A claque respondeu freneticamente com aplausos e gritos. Logo depois, a ordem era "silêncio" e a platéia obedeceu..
Fechada hermeticamente em uma cabine onde podia ver apenas uma tela de monitor com propagandas da emissora, tinha à frente de sua boca um microfone e em seus ouvidos, dois potentes fones de estúdio tocando em volume absurdo, músicas de cantores conhecidos.
O apresentador começou:
- E agora, senhorita Dulceline Regifátima, consegue me ouvir?
- Siiiiiim!
- Então vamos à primeira oferta! Basta responder sim ou não. Você quer este pente de plástico?
Ela não podia ouvir a pergunta, apenas a mensagem na tela: DIGA SIM, DIGA NÃO!
Aquilo era uma tortura, mas respondeu:
- Siiiiiim!
- E agora, quer trocar este pente de plástico por um refrigerador Trastemp , aço inox, frostfree?
-Siiiiiiim!
- Quer trocar este espetacular Trastemp por um automóvel BMW 0 km?
- Siiiiiiim!
- E agora, senhorita Regiline Dulcefátima, perdão, Dulceline Regifátima, é a hora da última pergunta. Quer trocar esta flamante BMW 0 km, ano 2011, no valor de quinhentos e cinqüenta mil reais, por esta galinha viva?
- O país inteiro berrava em frente aos aparelhos de TV, desesperadamente, não! não! A platéia estrebuchava, urrava, esperneava, mas ela não podia ver nem ouvir nada, apenas a voz de Natália Secco cantando "ler em teus lábios a palavra sim". Ela achou que aquilo fosse um sinal.
E gritou com todas as forças do peito:
- Siiiiiiiim!!!



Quando saiu da cabine, tonta, tropeçando nos altíssimos saltos acabou vendo a merda toda que havia feito com aquele sim. Sozinha no hotel, pensou em matar-se, a vergonha do retorno à cidadezinha, o vexame a gozação. Trancou-se em casa. Não queria atender a ninguém. Uma voz forte gritou lá fora, "CORREIO" e só assim ela abriu para receber uma caixa de papelão cheia de buracos redondos. Era a galinha, com os cumprimentos da emissora pela participação no programa. O carteiro malicioso saiu cantarolando có- ró-có-có , có-ró-có-có....
Ainda estava chorando, quando alguém muito insistente bateu repetidamente à porta.
Abriu!
O tenente estava ali, imponente em sua farda camuflada, a boina verde meio pendida, deixando ver o lado da cabeleira negra, os coturnos brilhando e a pistola automática no coldre pendendo do cinturão, completava a imagem de um super macho, encantado pelo fetiche da farda.
A galinha, desastradamente, ou não, apareceu andando pela sala. Dulceline queria morrer de novo, enfiar-se dentro da caixa de papelão, quando Liones Genário Barreto falou-lhe calmo, com um tom de ternura na voz:
- Você sabe cozinhar?
Ela não entendeu o propósito da pergunta, mas ele logo arrematou:
- Porque não prepara esta galinha e me convida para jantar?
Num impulso, ela jogou-se em seus braços e enlaçou-lhe o pescoço, em pranto.
- Quer casar comigo? - ele perguntou de chofre, como numa decisão militar.
Desta vez, entre soluços, ela viu pela primeira vez que toda a sua felicidade sempre estivera ali ao seu alcance, e respondeu baixinho e docemente:
-Sim!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

DOIS MIL E DEZ NATAIS

Márcio José Rodrigues

Dois milênios! Tanto tempo é passado...
A noite mais feliz, inigualável,
O mistério de amor mais memorável,
A humanos mortais, já revelado.

Um menino, herdeiro majestoso
Do rei mais poderoso do universo,
Faz o mundo, em luz, nascer imerso,
Na grandeza do gesto generoso.

Pois, de amar tanto assim, a criatura,
Encarna em criatura, o Ser Perfeito
E o que é divino, humano se afigura.

Se, do amor, mesmo Deus, está sujeito,
Que eu também possa usar dessa ternura
E deixar ser Natal dentro do peito.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

PÃO POR DEUS

                                                         Márcio José Rodrigues



 
Difíceis aqueles tempos nos campos da Madre e nos arredores da lagoa do Camacho.
Tropas imperiais ameaçavam os farrapos do General Canabarro, em retirada após a fragorosa derrota na heróica batalha naval na Barra da Laguna naquele 15 de novembro de 1839. A esquadra de Mariath impingira uma implacável derrocada à pequena frota farroupilha. O lendário Giuseppe Garibaldi perdera muitos amigos naquele local fatídico, mas nada fora tão dramático como a morte do inseparável João Grande, cortado ao meio com um certeiro tiro de canhão da poderosa artilharia da fragata " Bela Americana".
Na companhia de Anita, a quem levaria para sempre ligada ao seu próprio destino, cavalgava cabisbaixo. Por ele, ficariam nas cercanias para tentar a retomada da cidade, idéia não comungada pelo General, que pretendia um retorno rápido ao Rio Grande do Sul.
A tropa em andrajos seguia melancólica, um penoso caminho só suportado por heróis.
Acossados e sem mantimentos, com o quase nada de armas e munições que lhes restara, deixavam para trás o sonho efêmero de uma pátria livre em terras da província de Santa Catarina.
A romântica República Juliana não durara mais que uma quimera.
Embora fosse quase verão, já em novembro, o vento frio soprava rigoroso, do sul e açoitava sem piedade os corpos daqueles homens cansados e seminus, atormentados pela fome e pela melancolia. Um pouco à retaguarda, alguns cavaleiros solitários e esparsos, experientes e ligeiros, cobriam a retirada e marcavam o limite seguro entre os piquetes imperiais e os retirantes, observando os movimentos do inimigo.

Um guasca chamado Diogo, homem curtido na dura lida da estância e mais ainda pelas agru-ras da guerra, contornava uma duna alta não longe da praia quando, num repente, avistou a pouca distância um infante imperial desgarrado do seu grupo. Separava-os apenas um curto galope atravessando uma sanga de água estagnada deixada pelas chuvas de dias atrás, mas não tão perto para um arremesso de lança.
O soldado não parecia mais que um guri e pelo aspecto novo da farda azul, devia ser um desses recrutas sem posses que o exército arregimentava e mandava para o combate, sem muito treina-mento.
Ao deparar com a imagem repentina do cavaleiro, o rapaz assustado e só, sente um tremor percorrer-lhe toda a espinha e o coração disparar. Tão logo se refaz da primeira impressão de espanto, leva incontinenti a mão ao cão do fuzil e daí, quem sabe, dar voz de prisão ou mesmo atirar no desconhecido.
Mas, o inexperiente recruta não tinha vivência para avaliar o que poderiam juntos, aquele homem e seu cavalo. Numa fração de segundo, como se homem e animal fossem um só, o farrapo precipitou o corpo para o flanco escondendo-o totalmente da mira e já apontando a aguçada lança para o ataque, sob o pescoço da montaria. Rápido em sua reação, o magnífico e treinado corcel, ao mesmo tempo, arrancou impetuoso e arremeteu contra o jovem atropelando-o com uma violência inimaginável, prostrando-o atordoado ao chão.
Quando se recompôs e tentou levantar-se, era tarde demais. O gaúcho de pé à sua frente já lhe tinha a ponta afiada da lança alojada abaixo do queixo comprimindo-lhe a garganta. Com o mínimo esforço ele o transpassaria.
O pobre infante reconheceu sua condição de inferioridade e anteviu seu triste fim. Mais que medo, a tristeza e a decepção de acabar sua vida daquela forma humilhante, produzia-lhe uma repen-tina secura e um desagradável gosto na boca.
Não pediu clemência. Apenas elevou devagar a mão, mostrando a palma, como que pedindo um momento de vida.
Sob o olhar atento e os sentidos ainda mais aguçados do cavaleiro, retirou de dentro do casaco uma folha de papel e a apertou contra o peito.
Pensando tratar-se de uma importante mensagem, o farroupilha tomou-o num gesto rápido.
À noite no acampamento achegou-se à barraca dos oficiais.
- Comandante, o que tem escrito neste papel?
Garibaldi aproximou-o do nariz e aspirou, longa e suavemente, resquícios de um delicado perfume. Achegou-se mais à luz do lampião e leu o que nele estava escrito, com letras arredondadas letras de mulher:

“Ao meu estimado Diogo
Que parte nessa jornada
Pão-por-Deus manda pedir
Que volte para sua amada."

Calou por algum tempo como se o singelo poema ou sua fragrância o tivesse remetido a outro lugar, que não aquele desconfortável acampamento do Camacho.
Finalmente, dirigiu-se ao ansioso homem que se mantinha ereto, à sua frente:
- Diogo, caro mio, quem escreveu estes versos para ti? Isto é um " Pão por Deus", uma declaração que as moças açorianas costumam enviar aos seus amados. Eu também já recebi um desses, da minha Anita, disse sorrindo. Depois comentou mais sério:
- Que coisa esta guerra, caro mio! Então tu deixaste um "amore" na República Juliana?
- Não, meu comandante! Este papel eu tirei de um soldado imperial.
- Mas que destino! O imperial tinha o mesmo nome que tu!
- Comandante, pode ler de novo o escrito?
Garibaldi sorriu e o leu de novo pausadamente.
- Gracias, comandante!
O italiano estendeu-lhe o papel.
Diogo apanhou-o, tocou de leve a aba do chapéu e apenas balbuciou:
- Com sua licença!
Depois do leve gesto de cabeça do oficial, retirou-se para longe das fogueiras e ganhou a escuridão da noite. Fazia muito frio e o vento soprava forte. O céu estrelado, limpo, de um fundo azul quase negro destacava com forte contraste o brilho das estrelas. As "Boleadeiras" (Três Marias) em linha, lembravam Negrinho do Pastoreio apealando cavalos na estância de Deus.
Olhou na direção do sul, como que buscando o lugar de suas lembranças. No alto, o Cruzeiro refulgia soberano e como sua lança de combate, apontava para a querência onde também deixara a chorar sua chinoca...
Tentou lembrar os versos e eles vieram aos pedaços.
Estimado Diogo...
Pão por Deus...
Que volte para sua amada.
... que não sabia ler nem escrever, mas também lhe dizia coisas lindas assim, quando ele se mirava no fundo dos seus olhos escuros.
A solidão apertou ainda mais uma ansiedade ao mesmo tempo sentida e doce em seu coração. Naquele espaço majestoso e vasto, um poeta repentinamente acordado, que morava em seu peito rústico de campeiro, arrancou-lhe um pensamento. Não haveria momento, nem mais nenhum outro lugar no mundo, tão lindo e tão grandioso, para dizer alguma coisa ao Grande Estancieiro do Céu.
E assim, num gesto de reverência, posição perfilada de soldado, inclinou a cabeça e apertou o chapéu contra o peito, dirigindo-lhe uma prece entrecortada pela emoção:
- Patrão do Céu, hoje eu te dou gracias por não ter tirado a vida do soldado imperial.
Pois entonce, deixa que ele volte para sua amada!
E que eu também possa voltar para a minha!
Com o papel entre os dedos, pensou em levar consigo aqueles versos ao Rio Grande, mas havia decidido que não lhe pertenciam. Ergueu a mão sobre a cabeça e soltou-o na escuridão para que o vento o transportasse na direção da Laguna e lá encontrasse seu verdadeiro dono.

(Foto de Luis Santana)