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sexta-feira, 15 de abril de 2011

O PARQUE DA CARIOCA

Dulce Claudino



A límpida água que jorra da fonte
Que encanta o turista e refresca o viandante
Numa manhã julhina desperta viçosa
Transparente, maculada, modesta e silenciosa
Aguardando a locução solene:
" A Fonte da Carioca é reinaugurada ".

Efusivos aplausos, fogos, descontração,
Sorrisos alegres enfatizam o desenlace da fita
Ao som musical da banda União dos Artistas
Nativa deste chão.

Recipientes acolhem a água cristalina
Refrescando os lábios ressecados pelo vento sul cortante
Que rasga os ares , levando consigo
As desalinhadas folhas num voo razante.

Os pés são firmados nas pedras ,que servem de fundo ao tablado
Olhando para o alto, o azul do céu, cede o lugar ao tom das folhas ,
Que forram o teto , cor verde cerrado.

As pessoas caminham sentindo o aroma das plantas silvestres,
Do ar despoluído, da seiva da terra.
Faceiras adentram ao âmago do parque,
Novo ponto turístico, harmonizado às belezas que Laguna encerra.

PARQUE DA CARIOCA, assim batizado
O recanto da felicidade, dos aromas, dos desejos...
Da água que une os enamorados , que afiança o príncipe encantado
Como dito popular, crê-se profetizado:
" Beber da água da Fonte da Carioca é eternizar o amor sonhado".

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

A VIAGEM

Dulce Claudino



CHOQUE ENTRE PUPILAS
NUM ESPELHO RETROVISOR
VEÍCULO EM MOVIMENTO
EUFORIA E TORMENTO
FLECHADA DO INVASOR.

CALADA DA NOITE
  ELA, A CARONEIRA,
  Ele, O CONDUTOR
  FUSÃO DESCOMPASSADA
      VERTIGENS, ARRITMIAS, PALPITAÇÕES...
A HORA ERA CHEGADA
ANINHAVA-SE O AMOR
NO ÂMAGO DOS CORAÇÕES.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

TRISTE SINA

Dulce Claudino

          Dona Corina entregou a alma a Deus, deixando como herança um falante papagaio à sua querida sobrinha Cleusa.
         - Credo, Onório, praguejava Cleusa. Ter que conviver com esse bicudo, já é um castigo.
         - Qual nada, mulher. Ele é falante e até canta um trecho do hino do Corinthians.
         - Não duvido? Nossa vizinha Selma vai ficar tiririca. Ela é botafoguense rachada.
         - Gorda! Gorda! Gorda!
         - Cala esta boca, bicudo !
          De nada adiantavam as ordens de Cleusa. Quanto mais berrava , mais o loro cantava:
          - Salve o Corinthians ... Gorda... O campeão... Gorda...
          - Miséria! Vou te matar, ameaçava  e o bicudo calava meio amedrontado.
           O tempo passou. A vizinha não suportando os insultos, mudou-se. O loro parou de cantar? Jamais. Parecia um CD que nunca arranhava. Até que numa manhã chuvosa Onório espantou-se ao ver o papagaio esticado na gaiola.
           - Cleusa, acorda, o bicudo morreu.
           - Maluqueceu marido ? Ontem, antes de dormir ainda escutei aquela canção que ele compôs pra mim.
           - Venha ver. Morreu babando o pobre!
            Cleusa nem olhou o pássaro, passou de fininho e pediu ao marido que o enterrasse no fundo do quintal. O sepultamento era uma tarefa que a aterrorizava, ainda mais o do bicudo cantor e praguejador.
             E o tempo que não para , trouxe a Cleusa umas dores lombares.
            -Onório, amanhã vou ao médico do SUS. Marquei consulta no postinho do PSF.
            - Fez bem, mulher. O Doutor Fagundes entende de mulheres. Ele apalpa, apalpa, até descobrir a doença. O compadre
             Juca comentou que a comadre voltou da consulta com umas manchas roxas, mas que ele acertou no remédio, ah! Acertou.
            - Mas comigo vai ser diferente! Vou logo pedindo pra bater uma chapa.
             A visita ao consultório foi só o tempo de fazer o Raio X e descobrir o motivo das dores.
            - Dona Cleusa , a senhora sofre de Osteofitose.
            - Nome bonito, Doutor ! É doença de gente rica, é?
            - Não . É doença dos humanos. Não tem classe social. É o famoso “Bico de Papagaio”.
            - Meu Deus! Eu sabia que a alma daquele bicudo vinha me perturbar. É maldição. Ele não foi pro céu dos passarinhos.
              Ele veio se vingar. Não me perdoou.
            - Acalme-se , Dona Cleusa! Vou prescrever a receita e a senhora vai ficar boa.
            - Não, Doutor! Tenho que pagar meu crime . O chumbinho que coloquei na comida do bicudo não era para matar. Era só um castigozinho e ele não resistiu.
              O médico educadamente pediu que Cleusa se acalmasse , pois estava atônito com a sua reação.
              Cleusa em prantos saiu devagarinho resmungando :
             - Puxa , bicudo ! Eu até gostava de você. Eu só odiava aquele gorda... gorda...gorda... Mas você foi malvado ! Por que não repousou sua alma no meu pé, por exemplo! Foi logo escolhendo o meu lombo. E, agora, como o Onório vai brincar de cavalinho comigo? Triste sina!


 

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

MAR , MARÉ , MARESIA...

Dulce Claudino




Lua cheia no céu.
No mar, fluxos de serpentinas multicores
Adornam a orla espumante
Sobrepujando as ondas que beijam a areia
Num zumbido cantante.

Bem longe, acariciando o infinito
topo de uma embarcação toca de leve as teias douradas
E baila , valsando notas de um refrão
Sonorizado nas guitarras das ondas enluaradas.
Bem perto, o sonhador espelha-se
Na versão silenciosa de uma penetrante onda
Vasculha suas entranhas, encharcando-as   de transparentes bolhas suaves, gélidas
Molhando a alma na execução de sua ronda.

A escuridão domina no apagar das velas pelo sopro de uma negra nuvem
Afugenta-se o brilho das serpentinas multicores
Os pés do sonhador caminham sem rota, vagando sobre as ondas em ziguezague
As narinas aguçadas saboreiam os odores.

                        Mar , maré , maresia...
                        Um acalanto, que alimenta o sonho
                         Ao embalar a rede de quem dorme ao léu.

                                 Mar , maré , maresia...
                                 Doce seresta de quem vive em festa
                                  Por ter como berço o aconchego do enlace
                                  Entre MAR  e  CÉU.
                               


(Imagem: http://www.photos8.com/)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O PESO DO SIM

Dulce Claudino

      - Sim ! Gritou com todo o ar que exalava dos pulmões.
      - Sim , consciente? Respondia o apresentador àquela voz estridente da loirinha de maçãs avermelhadas, que repetia: Sim. Sim . Sim
      - Você pensou bem no objeto que está adquirindo ? Foi presente de um anônimo , que deixou na sala de recepção para ser sorteado no programa. Ninguém verificou o seu conteúdo.
       - Mesmo assim eu quero. O pacote é lindo ! Todo revestido de estampa colorida e o laço de renda é um mimo , retrucava a loirinha frenética.
       - Pois bem, é todo seu, venha buscá-lo.
        A mocinha caminhando entre as cadeiras exibia o seu pacate que só abriria ao chegar em sua casa. Queria um momento só para ela e oseu presente.Olho grande por perto, nem pensar.
         Já em casa, sentada confotavelmente em seu sofá preferido, foi tranquilamente desenlaçando a renda, desembrulhando o pacote e a caixa estava aberta.
          Um grito de terror, misturado ao pedido de socorro fez com que toda a vizinhança invadisse a sala , onde , a loirinha petrificada apontava a caixa e o seu conteudo espalhado sobre o tapete.
         - Que loucura ! Por que tanto desespero? Comentou o velho Borba e acrescentou :
         - Eh! Loirinha ? São bichinhos de plástico : aranhas, lagartichas, taturanas, jacarezinho, até umas cobrinhas corais...
          Misturando o riso ao pranto a graciosa loirinha balbuciou.: - É o peso do SIM  desconhecido...
         - Frase espetacular,  disse Borba . Você entendeu " Como as aparências enganam ? ". 



quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

BEM-VINDOS NATAL E 2011



Dulce Claudino

Psiu ! Pare um instante. Percebeu?
São os passos cautelosos que anunciam o natal!
São eles, os arcanjos, envoltos num véu,
Descendo do céu num fio dourado de estrelas cadentes
Imitando carrossel.

O nosso? O das Letras? Demasiada ousadia!
Não dos arcanjos...
Dos corajosos viajantes desta nave, que de mãos entrelaçadas
Circundam o infinito com movimentos giratórios
Ao som dos sinos em badaladas.

É mais um natal, Carrosseleiros da unidade,
Ostentando no bojo os nossos sorrisos alegres, festivos, triunfantes
Do dever cumprido: O da Fraternidade.

Bate às portas um novo ano, alquebrado com tanta felicidade
Na testa um letreiro: “Viver é o essencial”
O que se foi passou. Virou saudade.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

AS VERRUGAS DE SUA MAJESTADE

Dulce Claudino
Garbosa, faceira, misteriosa... Ares de dama? Princesa? Rainha? Pertence ou espia a Corte?
A menina a observava de longe, descansada numa touceira alta de capim, pernas cruzadas, mãos ao queixo, olhos fitos em Sua Majestade. A majestosa, requebrava num pé só feito Saci-Pererê, ostentando seu vestido verde, balonê.
- Vejam só, balbuciava a garota, tão exibida e as pernas roliças cobertas por um manto negro de verrugas de tamanhos diversos. Continuando o monólogo, sem plateia, a não ser uma fileira de formigas carregadeiras, que transitavam o caminho, alquebradas ao peso das folhas às costas.
-Vou me aproximar. Quem sabe um vento matreiro não arranca com seus dentes pontiagudos uma daquelas grandes verrugas e eu, prazerosamente, a transformo em bola de gude ou pingue-pongue. Devagarinho foi se achegando. Olhou de relance para cima e o queixo despencou ao encarar o interior de Sua Majestade.

 -Ah...o que Ela esconde sob o seu vestido verde balonê !!! As narinas pronunciaram-se em cacoetes inalando o aroma provindo das entranhas de Sua Majestade. Como agir? Remover suas verrugas e chupá-las saboreando a polpa suculenta? Engolir ou não os caroços? Cadê coragem! Saiu do torpor ao ouvir zumbidos de invasores.
-Oi...Tem alguém aí? Preciso de ajuda. Estou agarrada às pernas de...
Começou a colheita. As mãos se cruzavam na árdua labuta. Sorrisos debruçavam-se às alças dos cestos repletos dos frutos frescos da jabuticabeira.