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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O PESO DO SIM

Flávio Goulart Barreto


Ela disse um primeiro sim e dali em diante tornou-se escrava daquele mau caráter. Libertou-se quando disse sim novamente, quando ele perguntou se ela queria ir embora.

domingo, 12 de dezembro de 2010

NATAL CHUVOSO

Flavio Goulart Barreto

Poucos dias antes do natal de 2001 na madrugada de uma manhã chuvosa e até fria para aquele dezembro, eu caminhava de casa para o trabalho e presenciei uma cena que gosto de lembrar e agora conto, porque recentemente alguém me fez pensar que foi algo incomum.
Um cidadão bem vestido, de terno e gravata de bom corte e tudo combinando, caminhava na minha frente carregando uma pasta tipo executivo, um pacote grande que parecia de documentos e um papel transparente contendo um panetone grande a aparentemente "dos bons".
Alguns metros adiante uma destas meninas mendigas que dorme na rua e acordam sujas e sem banho o interpelou: Senhor eu quero lhe desejar um bom natal, mas vou ter a ousadia de lhe pedir que me doe um pedaço deste pão porque estou com muita fome.
Ouvi porque estava muito perto e imaginei que pela aparência do cidadão ele sequer responderia ou daria qualquer atenção, mas qual não foi minha surpresa, quando ele colocou a pasta e o pacote no chão molhado, abriu o pacote de panetone, partiu ao meio e tentou fazer a entrega à menina, sem dizer uma palavra.
Para minha surpresa a menina não o recebeu de imediato e falou: Senhor estou com as mãos muito sujas porque estou juntando latinhas de cerveja para vender, será que o senhor não poderia embrulhar o "meu" pedaço em parte deste papel para que possa primeiro lavar as mãos numa poça destas de chuva?
E ai nova surpresa: o aparentemente respeitável ou orgulhoso cidadão entrega à menina a parte do pão que ficara com o papel e segura em suas próprias mãos o pedaço desembrulhado. Então, com uma das mãos ocupadas (porque um pedaço de pão solto é menos fácil de segurar) e com dificuldades, junta o pacote de documentos e sua pasta umedecidos pela chuva e tenta recomeçar sua caminhada ainda sem dizer palavra. E novamente a menina fala: Senhor, eu não lhe desejo só um bom natal, eu lhe desejo um natal como o senhor nunca teve, porque quando eu pedi o pão tinha certeza que o senhor nem ia parar".
Como eu caminhava lento apenas reduzi ainda mais meus passos, mas não parei e já tinha passado pela cena quando resolvi olhar para traz e vi rolarem nos olhos do cidadão lágrimas em bastante volume. O homem chorava de verdade. O natal dele não estava molhado apenas pela chuva, mas também de lágrimas e certamente lágrimas de muita felicidade.

Imagem: Mike Hill